Psicoterapias · Seminário de Saúde Mental

Psicoterapias

Diferentes formas de compreender o sujeito, o sofrimento e a mudança

Internato em Saúde Mental · Seminário
01 SET 2026 · 08:30
Lorencato · Nicole · Vinícius

O que exatamente muda em uma psicoterapia?

Psicoterapia não é apenas uma coleção de técnicas.

É uma forma organizada de compreender e intervir sobre o sofrimento psíquico — modelo, objetivos, intervenções e contexto sustentados por uma relação.

Cordioli & Grevet (orgs.), Psicoterapias: abordagens atuais, 4. ed., Artmed, 2019.

Quatro lentes.
O mesmo sujeito.

Duas orientações teóricas e duas modalidades clínicas — com recorte interpessoal para grupo e sistêmico para casal e família.

Fio narrativo · caso fictício

Rafael, 28 anos

«Quero parar de me sentir assim.»

Sem diagnóstico fechado.
O caso serve de eixo comparativo.

Lente 01

Psicanálise &
psicodinâmicas

Como compreende o sujeito?
Histórico e relacional — atravessado por afetos e conflitos conscientes e inconscientes
Onde localiza o sofrimento?
Em padrões afetivos e relacionais que se repetem, nem sempre de modo consciente
O que produz mudança?
Compreensão, elaboração e novas experiências na relação terapêutica
Qual o lugar da relação?
Transferência, aliança e manejo do vínculo são recursos clínicos

Cordioli & Grevet, 2019 — seções sobre terapias psicanalíticas e psicodinâmicas.

Lente 02

Terapias cognitivo-
comportamentais

Como compreende o sujeito?
Pessoa situada que interpreta, aprende e pode construir novos repertórios
Onde localiza o sofrimento?
Na interação entre cognições, emoções, comportamentos e contexto
O que produz mudança?
Formulação compartilhada, experimentação, exposição e aprendizagem
Qual o lugar da relação?
Colaboração ativa — também participa do processo de mudança

O paciente não mudou. Mudou o modelo que organiza o que se observa nele.

Lente 03

Quando o campo terapêutico
inclui o outro.

Psicoterapia de grupo · recorte interpessoal
Como compreende o sujeito?
Constituído e observado nas relações
Onde localiza o sofrimento?
Em padrões interpessoais, isolamento e dificuldades de pertencimento
O que produz mudança?
Coesão, universalidade, feedback e aprendizagem interpessoal
Qual o lugar da relação?
Múltipla — participantes e coordenação compõem o campo

Yalom & Leszcz, The Theory and Practice of Group Psychotherapy, 6. ed., Basic Books, 2020.

Lente 04

E se o problema não estiver
apenas “dentro” do indivíduo?

Terapias de casal e família · recorte sistêmico
Como compreende o sujeito?
Pessoa inserida em relações e sistemas em movimento
Onde localiza o sofrimento?
Em padrões relacionais, significados e contextos que se retroalimentam
O que produz mudança?
Reorganizar padrões, regras e significados
Qual o lugar da relação?
Alianças múltiplas — participação clínica sem perder a posição terapêutica

Causalidade circular, não linear.

Quatro recortes, quatro mapas

Tendências didáticas — não definições totais
Psicodinâmicas
TCC
Grupo
Casal & família
Sujeito
Histórico, relacional, em conflito
Situado; aprende e atribui sentidos
Pessoa em relações
Pessoa em sistemas
Sofrimento
Padrões afetivos e relacionais
Cognição, emoção, ação e contexto
Padrões interpessoais e isolamento
Padrões relacionais circulares
Mudança
Compreensão, elaboração, experiência
Aprendizagem e experimentação
Coesão, feedback e aprendizagem
Reorganizar significados
Terapeuta
Escuta, formulação e manejo
Colaborador ativo, orientado por formulação
Coordena e cuida do campo
Maneja sistema e alianças
Relação
Transferência e aliança
Colaboração e fator de mudança
Múltipla, com papéis definidos
Alianças equilibradas
Recursos
Associação, clarificação, interpretação
Reestruturação, exposição, tarefas
Feedback, microcosmo social
Genograma, reenquadre, tarefas
Indicação
Padrões recorrentes; objetivos acordados
Diversos quadros; formulação individual
Objetivos interpessoais; critérios de grupo
Demandas relacionais; segurança avaliada
Limites
Acesso, tempo e adequação do enquadre
Risco de rigidez sem formulação singular
Seleção, sigilo compartilhado, evasão
Engajamento, assimetrias e segurança

A pergunta não é qual delas venceu — é o que cada modelo torna mais visível, e o que deixa menos visível.

Fatores comuns

Como técnica, relação, expectativas e contexto se combinam para produzir mudança?

Wampold BE. How important are the common factors in psychotherapy? An update.
World Psychiatry. 2015;14(3):270–277. doi:10.1002/wps.20238

A imagem clássica

E a clínica psicanalítica contemporânea?

Cordioli & Grevet, 2019 — psicoterapias psicodinâmicas, breves e de apoio.

A técnica também mudou?

A interpretação permanece — ao lado de intervenções expressivas e suportivas, manejo da transferência e da aliança, foco e duração quando indicados e adaptação ao contexto.

Quem escolhe a psicoterapia?
Paciente
Diagnóstico
Abordagem

É realmente assim?

Decisão compartilhada: necessidades e preferências, objetivos, formulação clínica, evidências, segurança, competência profissional e recursos da rede.

O campo é maior.

Orientações · modalidades · protocolos · integrações
Terapia interpessoal
ACT
DBT
EMDR
Terapia focada na emoção
Gestalt-terapia
Psicodrama
Fenomenológico-existencial
Análise do comportamento
Terapia narrativa
Terapia do esquema
Intervenções baseadas em mindfulness
Psicoterapias breves
Abordagem centrada na pessoa

Panorama ilustrativo: os exemplos não pertencem todos ao mesmo nível de classificação.

Até aqui, olhamos para psicoterapia
01Sujeito + família
02Território e vida cotidiana
03Rede de cuidado

Mas cuidado em saúde mental é maior do que psicoterapia.

Clínica ampliada

O sujeito é maior que seu diagnóstico.

No SUS, psicoterapias individuais, grupais e familiares podem integrar o cuidado em diferentes pontos da rede — articuladas ao PTS, não como destino isolado.

Brasil. Ministério da Saúde. Clínica ampliada e compartilhada. Brasília, 2009.
Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Mental. Cadernos de Atenção Básica, n. 34, 2013.

“Encaminhar para a psicologia”
PTSPROJETO TERAPÊUTICO SINGULAR

Cuidado não é transferência de responsabilidade.

PTS — diagnóstico ampliado · definição de metas · divisão de responsabilidades · reavaliação.
Brasil. Ministério da Saúde. Clínica ampliada, equipe de referência e projeto terapêutico singular. 2. ed., 2008.

Terapêutico ≠ necessariamente
psicoterapia formal

Brasil. Ministério da Saúde. Saúde Mental. Cadernos de Atenção Básica, n. 34, 2013.

E as PICS?

Projeto de cuidado
Psicoterapias
PICS

PICS não são classificadas como psicoterapias. Formam um conjunto heterogêneo, com indicações e níveis de evidência distintos, e podem compor o cuidado.

PNPIC — Portaria GM/MS nº 971/2006, ampliada pelas Portarias nº 849/2017 e nº 702/2018. O SUS reconhece 29 práticas; a oferta concreta varia conforme o território e o serviço.

Rafael, 28 anos

A pergunta mudou.

“Para qual abordagem eu encaminho?”

“Que cuidado faz sentido para este sujeito?”

Não existe uma única forma de compreender o sofrimento.

Não existe um único mecanismo possível de mudança.

E cuidado em saúde mental não é sinônimo de psicoterapia.

O sujeito vem antes da abordagem.

Psicoterapias

Quando dizemos “encaminhar para a Psicologia”…

…o que exatamente estamos propondo?

Referências

Bibliografia

CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (orgs.). Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 792 p. ISBN 978-85-8271-527-7.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 176 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34). ISBN 978-85-334-2019-9.
WAMPOLD, B. E. How important are the common factors in psychotherapy? An update. World Psychiatry, v. 14, n. 3, p. 270–277, 2015. DOI: 10.1002/wps.20238.
BRASIL. Ministério da Saúde. Clínica ampliada e compartilhada. Brasília: Ministério da Saúde, 2009. (Série B. Textos Básicos de Saúde). ISBN 978-85-334-1582-9.
BRASIL. Ministério da Saúde. Clínica ampliada, equipe de referência e projeto terapêutico singular. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2008. 59 p. (Série B. Textos Básicos de Saúde).
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 971, de 3 de maio de 2006 — Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. Ampliada pelas Portarias nº 849/2017 e nº 702/2018.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.088, de 23 de dezembro de 2011 — origem da RAPS; conteúdo consolidado no Anexo V da Portaria de Consolidação nº 3/2017.
YALOM, I. D.; LESZCZ, M. The Theory and Practice of Group Psychotherapy. 6. ed. New York: Basic Books, 2020. 818 p.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: atitude de ampliação de acesso. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.

Referências institucionais e acadêmicas utilizadas na elaboração do seminário.

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